segunda-feira, 28 de junho de 2010

A ÚLTIMA CEIA

Quis saber dele o porquê de toda aquela intensidade de sentimentos, de verdade. O porquê de toda aquela intensidade em viver. Os meus sentimentos resultaram de uma soma de surpresa e espanto. Fiquei perplexo, os meus pés flutuavam, como se o chão os tivesse tirado de uma superfície sólida e segura. Mas ao mesmo tempo senti uma verdade inquietante. Sabe aquelas verdades que você preferiria que fosse uma mentira ou que você achava melhor não ouvir? Só que paralelo a tudo isso você pensa: se ele não me dissesse e depois eu fosse pego de surpresa? Sentiria-me traído pela falta de confiança depositada em mim, em nossa amizade e em tudo o que vivemos e passamos juntos. Tomei coragem: por que vivis assim? És tão intenso cara... Convidou-me a sentar e começou: sabe... Tenho a sensação de que viverei pouco. Tipo, que minha vida é curta ou de que não vou ter tempo suficiente de expressar, mostrar ou simplesmente “viver” tudo aquilo que preciso para me sentir completo. Dizem que um homem está realizado completamente aos 40. Profissionalmente, afetivamente e pessoalmente. Acho 40 ainda pouco, mas nem sei se vou até lá. Mas de qualquer forma – começou a sorrir – não somos eternos mesmo. Assim, pelo menos não no sentido de existência. Mas creio que a nossa eternidade está mais ligada às marcas que deixamos na memória das pessoas. Talvez por isso eu viva assim. Nesse momento meus olhos cheios de lágrimas me fizeram lembrar o que um padre falou uma vez sobre a beleza da última ceia de Jesus.  “Não há pressa. O momento é feito para celebrar. A mística da última ceia está ali. Jesus reúne aqueles que para ele tinha um valor especial. Inclusive o traidor”. É essa sensação de pressa e de que precisamos viver e fazer tudo muito rápido por que o tempo é curto. Por que estamos sempre sobrecarregados e atolados em projetos, agendas, compromissos. Por que estamos sempre querendo provar para alguém, para o mundo ou pra si mesmo que podemos sempre mais. Mas, e aquela mística da última ceia. Vou além – pensava enquanto fitava o seu olhar que observava o nada, pelo menos era o que parecia – e a mística do encontro com os amigos, com a família? E a mística do meu momento comigo mesmo? Aí outra surpresa. Ele realmente não estava olhando o nada. Estava olhando o tudo. Tudo o que havia vivido até ali. Olhando todos que haviam passado em sua vida e ainda os que iam passar. E já pensava em viver a “mística da última ceia” com eles. Ele voltou os olhos para mim sorrio e não disse mais nada. Também dessa vez não precisou. Vivemos naquele momento a mística da última ceia.

Um comentário:

ISLENE disse...

Esse me soou bem peculiar! vc foi feliz com as palavras e me tocou ao lê-lo, espero que o amigo esteja bem! sorrio p/ vc amigo e me idealizo na certeza de que a amizade verdadeira não se mede apenas em gesto, tbm se mede com lindas palavras. parabêns!